Posts Marcados Com: Márcio Silveira

Harley-Davidson XL 1200X Forty-Eight

Algumas motocicletas da fábrica de Milwaukee permitem que no primeiro olhar compreenda-se o motivo do nome de batismo, como a Fat Boy, a Road King e a V-Rod Muscle. A novidade da família Sportster para os brasileiros, disponível na linha 2014, exige um pouco de conhecimento de história da marca para decifrá-la. Em 1948 pela primeira vez a Harley-Davidson equipou uma motocicleta com tanque de combustível estilo Peanut, traduzindo: amendoim. A Forty-Eight, ou quarenta e oito em português, carrega entre o guidão e o banco, um amendoim, ou melhor, um tanque de combustível estilo Peanut. Capito?

A versão que foi submetida a minha pegada na Itália era 2013, e na “pele” recebeu pintura Hard Candy Custom Coloma Gold, um opcional que requer algum dinheiro a mais para tornar sua garagem mais purpurinada. A Harley explica o motivo da exclusividade na pintura: “começamos com várias aplicações de flocos de 200 mícrons sobre uma base prata, depois envernizamos e laminamos manualmente, mascaramos a matriz e aplicamos a cor Candy para que os flocos possam brilhar. É um processo trabalhoso que proporciona aspecto customizado e premium direto da fábrica.”  Aqui no Brasil, a versão 2014 conta com as carnavalescas pinturas Hard Candy Chrome Flake, Hard Candy Volcanic Orange Flake e ainda as mais tradicionais, mas com nomes não menos pomposos, Morocco Gold Pearl, Vivid Black e Blackened Cayenne Sunglo. Ufa!

Montando na moça, percebi o quanto ela é magrinha, esbelta, resultado do conjunto tanque amendoim, de apenas 7,9 litros de capacidade com motor Evolution V2 a 45 graus, disposto de forma longitudinal, refrigerado a ar e com 1200 cilindradas entregando um torque de até 9,8Kgf/m. Enquanto só olhei, fiquei me perguntando onde estão os 255 quilos declarados pelo fabricante como peso em ordem de marcha, ou seja, pronto para o arrocha, afinal, é isso que importa! Quando fui dar uma manobrada, senti que estão ali os quilos, logo abaixo de mim, muito concentrados rente ao solo, nos 100 mm de distância moto/solo e disfarçados pelos 710 mm de distância banco/solo.

Sou motociclista fanático. Gosto de olhar e admirar a máquina. Quando paro para um refresco, no bar ou posto de combustíveis, sinto-me hipnotizado, paquerando minha companheira, seja ela quem for, de qualquer marca, cor ou idade, parece sempre me olhar convidativa. Ainda olhando antes de enrolar o cabo, noto que ela vem calçada com “sapatões” bem gordos, os Michelin Scorcher, que à primeira vista indicam estar sobrando, com uma imensa área de contato com o solo tanto na parte central como nas laterais, são 150 mm de banda de rodagem na traseira e 130 mm na dianteira, sendo os dois aros, de 16 polegadas. Ótimo! Adoro motos que possuem as duas rodas do mesmo tamanho, raridade numa Harley e noutras do mesmo estilo. Até aqui, no que depender de mim, do motor e dos pneus, vai ser pura diversão. Confesso que o fato de abaixo dos pedais existirem pinos que mais parecem querer alcançar o pré-sal, até me estimulou, sei que não me deixo intimidar pelo frigir metálicos e vou riscar o asfalto italiano.

Com as mãos comecei a tatear os comandos, para que fossemos nos conhecendo melhor, para poder domar ela às escuras, sem necessidade de desviar meu olhar da cinematográfica paisagem italiana. Carrego comigo dezenas de milhares de quilômetros sobre as antigas BMW, que sob meus protestos abandonou seus comandos de setas, um de cada lado, ao qual eu me adaptava muito bem, e para minha felicidade estão presentes aqui nesta americana loira, e eles desligam-se sozinhos depois de alguns segundos. Gosto dos manetes grossos e pretos, dos comandos de setas, start e faróis, que além de muito bonitos são bem ergonômicos. Depois do elogio amaciador de ego vem o soco. Beira o absurdo o posicionamento do único botão, que levei muito tempo para achar, com função de cambiar as informações do painel, entre relógio, hodômetro total e os dois parciais, isso na versão antiga, já que para a versão 2014 está disponível também indicador de marcha e rotações do motor. Ele está localizado atrás do painel, que fica muito distante. Mesmo com meu 1,80 m de altura, preciso largar a mão do guidão por um bom tempo, clicando diversas vezes no botão até encontrar a função desejada, esticando-me e desviando o olhar da estrada. Imagino quanto pior é fazer isso para uma pessoa menor do que eu. Ideal seria um botão junto aos comandos de setas e faróis.

Essa donzela é do tipo que realmente passou longe de ler o Kama-Sutra, e se leu não gostou, escolheu uma posição só, bem agressiva, sem possibilidades de variações. Montando nela percebi que nossas aventuras seriam numa posição tipo “V”, olhando lateralmente, fico com as pernas avançadas e devido ao guidão baixo e distante, os braços também. Não é uma scrambler onde se pilota mais em pé, e nem uma café racer, onde se pilota com as pernas posicionadas para trás. O que é? O que é? Importa isso? Diante do mar de motocicletas que temos à disposição hoje, tornou-se impossível classificar motocicletas como antes, temos verdadeiras misturas de todos os estilos. A inspiração da Forty-Eight veio dos veículos Hot-Rod. Segundo a Wikipédia, “Hot Rods são carros geralmente das décadas de 1920, 1930 e 1940 modificados. As modificações geralmente incluem rodas largas atrás, já que os carros eram praticamente todos de tração traseira, pintura com chamas geralmente feitas a partir de aerografia e pinstriping, e motores potentes, na maioria das vezes V8. Muito Populares nas décadas de 1940 e 1950, fazem sucesso até hoje entre os entusiastas automotivos.”

Quer dizer então que ela é inspirada em carros rebaixados? Perceptível pelos 10 centímetros que separa ela do solo. E como não poderia deixar de ser, pelos aproximadamente 9,2 centímetros de curso na suspensão dianteira e 4,2 na traseira, com regulagem de pré carga da mola disponível.

Já me disseram que falo demais.  Justo eu que falei da tal “pegada”, estou aqui no maior papo furado. Então lenha na caldeira! Chave conectada lá bem depois do botão do painel, ao lado da caixa de direção, coisas que só a Harley faz para você e precisa mais do que um Mastercard para comprar, dedão direito cravado com força no start e dou vida para a casa de máquinas. Agora é enrolar o cabo! O som “clanc” ao engatar a primeira avisa, depois da chave, que estou de Harley.

Vamos juntos sob um intenso luar a rodar pelo entorno do Lago di Garda. A brisa nos refrescando numa noite de verão italiana, faz com que realmente tudo fique maravilhoso, dispersam minha atenção de qualquer botão ou falta de curso de suspensão, vou rodando como se estivesse flutuando, no asfalto perfeito, apaixonado, rezando para nenhum mosquitinho bater na minha cara e me despertar. Noite perfeita.

Dia seguinte, hora de acelerar na auto-estrada em direção a Veneza. Já previa que seria entediante, mas ao contrário de rodar no trecho curto à noite, o dia na estrada mostrou que realmente a moça é tipo uma pin-up, de saltos enormes, com ódio de pegar vento nos cabelos. Mesmo com o consumo variando entre 20 e 21 quilômetros por litro, ótimo para uma moto de 250 quilos e 1200 cilindradas, o tanque de 7,9 litros realmente prova que ela nasceu para rodar pouco. A posição de pilotagem, que na noite anterior achei bem invocada, agora revelou o que eu já previa. Tornei-me uma espécie de pára-quedas. Todo o vento, que agora não é brisa, mas um bafo quente, empurra-me para trás. Começa uma briga. Primeiro eu contra o vento, pois ele empurra até a sola do meu pé, depois eu contra a moto. A estrada está entediante e então quero acelerar para vencer a distância, mas também quero ir mais devagar para não sofrer com o vento.

A luz de reserva acende logo após usar meio tanque da gasolina. Essa luz acende tanto que os lugares mais visitados são os postos de gasolina, caso o uso da Forty-Eight seja um percurso com algumas centenas de quilômetros. Isso é um Hot-Rod então, algo com rodas, feito para ir até um ponto bem próximo e parar, ficar parado com muito estilo, sem nem dar tempo de nada ficar muito “hot”, apesar de ter um motor grande, para andar devagar, no máximo curtindo umas belas retomadas a partir de um giro baixo.

Ela é ciumenta e nasceu pronta para dar prazer somente para seu piloto, tem pedais e banco só para ele, mas como toda Harley que se preza, tem no seu catálogo de acessórios, além de banco e pedais para garupa, uma infinidade de outros itens.

O V2 empurra fácil através dos 160 km/h, mas o que gosto mesmo é de na saída botar uma marcha sobre a outra, até a quinta e última, brincando de acelerar a partir dos 60 km/h, fazendo tremer, enrugando o asfalto, sentindo o torque. O motor não transmitiu muito calor para minhas pernas e nem mesmo me fez sentir incomodado com vibrações.

Muitos passeios, auto-estrada e agora chegou à hora de subir os Alpes. Experiente, fui buscando as belas estradas vicinais, podendo obter mais prazer na pilotagem até alcançar a cadeia de montanhas do norte da Itália. Cheguei lá já com aproximadamente dois mil quilômetros de convivência, e tendo explorado os limites nas curvas, o que não é nada difícil, mas fiz uma chata constatação. Para a esquerda inclino sem sustos, deixando o pino da pedaleira empurrar ela para cima ao mesmo tempo que chora riscando no chão. Para a direita, logo após o pino da pedaleira tocar o asfalto, o parafuso da braçadeira da ponteira do escapamento toca o chão, e por tratar-se de uma peça rígida, faz a brincadeira acabar ali, exigindo cuidados para não bater forte ou trancar, efeito ampliado quando se leva uma garupa. Os pneus sobram em conforto e estabilidade.

Os freios certamente estão de acordo com o estilo Hot-Rod, suficientes para o uso tranqüilo para o qual a moto foi projetada, mas como se trata de item de segurança, a todo momento eu recordava do Brembo com ABS e linhas de freio em malha de aço que equipam a V-Rod Muscle, e que a Harley como já fez a BMW, poderia generalizar na qualidade de todos os modelos, incluindo eles em toda a linha. Gosto do freio que morde de forma mais brusca e imediata, sobrando potência, deixando para o ABS corrigir meus excessos.

Fantástico poder saborear os encantos e as fraquezas dela, afinal qual motocicleta não as tem? Numa daquelas paradas para fotos e troca e olhares, observo que ela é uma motocicleta escura, cheia de peças negras, estas também com pintura impecável, tendo apenas os cromados do escapamento e do bocal do tanque para lustrar, aliás, este último te convida a ser polido a cada parada, onde nossa digital teima em ficar impressa.

Depois de milhares de quilômetros com a 48, com dor na bunda e nas costas, meio raivoso com o tanque pequeno, não a culpo. Nunca esperei conforto, e isso não é um defeito, ela é sim uma motocicleta com seu estilo próprio e assim deve ser entendida. Tudo nela está condizente com sua proposta, a posição radical, o visual hipnotizante, o tanque pequeno. Só está sobrando motor, mas por tratar-se de um brinquedo caro ele acaba sendo bem-vindo, nos dando o prazer de enfiar à mão e sentir o poder entre uma esquina e outra. Acredito que a linha Sportester seja uma das mais customizadas, mas nesse modelo a Harley deixou os fabricantes de peças paralelas e acessórios com um trabalho mais difícil. Ela já vem pronta, inclusive com os espelhos posicionados por baixo do guidão.

Lá nos 1.600 quilômetros a revisão foi feita na concessionária e minha única solicitação foi posicionar as molas traseiras com carga máxima. Com carga abaixo da média e garupa, o fim de curso é constantemente sentido. No serviço, não me agradou o alto custo e o fato de não ter sido feita uma limpeza.

Depois de tudo, todas as conclusões sacadas, estão achando que para encerrar fui para um bar próximo à beira do lago tomar muita cerveja? Quem já não teve uma namorada que depois de alguns dias juntos te fazia ter certeza de que nada queria com ela, mas alguns dias separados te fazia morrer de saudade, que brigavam, mas na cama tudo se resolvia e ali já trocavam juras de amor eterno. Leandro e Leonardo cantam: “Perguntaram pra mim / Se ainda gosto dela / Respondi tenho ódio / E morro de amor por ela / Hoje estamos juntinhos / Amanhã nem te vejo / Separando e voltando / A gente segue andando / Entre tapas e beijos / Eu sou dela ela é minha / E sempre queremos mais / Se me manda ir embora / Eu saio lá fora / Ela chama pra trás / Entre tapas e beijos / É ódio, é desejo / É sonho, é ternura / Um casal que se ama / Até mesmo na cama / Provoca loucuras / E assim vou vivendo / Sofrendo e querendo / Esse amor doentio / Mas se falto pra ela / Meu mundo sem ela / Também é vazio”. A loira parece ter o dom de manter nas minhas memórias só os momentos maravilhosos e me convidou para sair de novo e vivermos ainda mais aventuras. Saímos para 14 horas pilotando e atravessando leste a oeste a Toscana, tocando o Mediterrâneo, na costa oeste, depois de ter tocado o mar Adriático dias antes na costa leste da Itália. Entrei madrugada à dentro cruzando montanhas na noite negra sob a copa de imensas árvores, só encontrando me entregando a uma cama e uma garagem passadas às 3 horas da manhã.

Problemas? Nenhum! Nem mesmo uma lâmpada queimada, nem pneu furado, nem problemas mecânicos muito menos elétricos. Na garagem, sujo, cansado, molhado, suado, mas com sorriso largo no rosto olho para ela e quase que escuto ela dizer: “instale um posto a cada 100 quilômetros e te dou o mundo, se você resistir!

Então toda paixão vale à pena! Só quem viver com ela centenas de quilômetros saberá quantas emoções ela pode proporcionar. Comigo foram muito mais do que Forty-Eight!

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Brazilian Days

Meses se passaram em milhares de quilômetros no Brasil. Sobe e desce frenético entre Rio do Sul, Florianópolis, Curitiba e São Paulo. Além de ir ao encontro de tantos amigos, como relatei no post anterior, a Citycom nesse tempo passou uns dias na mão da DAFRA e carinhosamente recebeu uma nova bolha, pastilhas de freio, correia, filtro de ar, óleo de motor e câmbio, proteção do escapamento nova e uma pintura no escape, além de uma revisão e verificação do estado da moto. Até detalhes como a cobertura de uns parafusos foram recolocadas. A constatação foi de que toda a exigência a qual a máquina foi submetida não lhe fez nenhum tipo de estrago ou desgaste acima do natural.

Na semana em que a City ficou em tratamento, a Dafra gentilmente me cedeu uma Dafra Apache 150 com 900 quilômetros. Obviamente eu não poderia dar moleza a mocinha jovem e tratei de sob uma chuvarada imensa acelerar fundo por 740 km contínuos de São Paulo para Rio do Sul/SC. No uso urbano, uma moto de menor cilindrada, menor peso e com câmbio que não seja o cvt da City, facilmente ultrapassa o melhor consumo da scooter que até hoje foi de 36km/l, mas na estrada, um motor pequeno sendo exigido 100% do tempo no máximo, além de entregar um desempenho menor, apresenta um consumo maior. A posição de pilotagem na estrada é excelente, assim como os freios, informações do painel, comandos e manoplas. Entre uma sexta e um domingo rodei aproximadamente 1.600 quilômetros com a Apache.

As saídas da capital de São Paulo me renovam mental e fisicamente. Acostumado com o sul do Brasil, sofro com a poluição sonora, do ar e até visual. O que mais me ajudou foi um squeeze que ganhei da BMW MOTORRAD Brasil, e que anda cheio de água 24 horas. Consumo aproximadamente 2 litros por dia. Tornou-se um ótimo costume que não pretendo abandonar.

Numa das idas de Sampa para o sul, a City apresentou um vazamento ainda na estrada, embaixo do local onde está a correia, que acabou sendo contaminada pelo óleo. A chegada em Florianópolis foi sofrida, com muita dificuldade em arrancar, com a moto carregada, pois a correia patinava no óleo que vazava. Na concessionária Si Motos, constatou-se que um retentor que fica envolta do eixo do câmbio estava quebrado, foi substituído junto com a correia e tudo voltou ao normal. Seguindo para Rio do Sul, 200 quilômetros serra a cima em Santa Catarina, o vazamento voltou e alguns dias depois retornei a Florianópolis na mesma concessionária. Dessa vez o retentor que vazou foi o que fica no entorno do eixo do virabrequim e variador. Substituída a peça, não foi necessário trocar a correia desta vez.

Na serra, uma parada no Mirante da Boa Vista, que fica na BR 282 e em Floripa um final de tarde na Praia do Forte deram mais fôlego para voltar a São Paulo e finalizar os preparativos para mais alguns quilômetros na estrada.

Depois de um pouco de reflexão uma das decisões foi abandonar a barraca e demais acessórios que eu levava. O motivo é simples. Não é prático nem seguro. Preciso da conexão pela internet, banho e um local para limpar e organizar o equipamento. Acampar sozinho em cidades desconhecidas é extremamente perigoso, não consegui distinguir um local seguro de outro inseguro e ainda assim, montado acampamento, fico imobilizado no local, e o objetivo é chegar e explorar os arredores com tranquilidade. A diferença de gasto de um hostel, pousada ou hotel simples para um camping com segurança é pouco e compensa.

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Luján a Uruguaiana

Em 16 de junho de 2012, depois de tomar um bom café, arrumar a bagagem, vestir o equipamento, montar bagagem na moto, pedi para o motociclista proprietário do hostel tirar uma foto minha na frete da Basílica de Luján, acertar as contas, o horário já avançava pelas onze.

O tanque estava já na reserva a alguns quilômetros e saí em busca de um posto com cartão de crédito, o que me sugou ainda uns minutos. Achei um posto na saída, tanque cheio e pago, dia lindo de sol, moto na estrada.

Objetivo do dia já estava definido e foi conquistado no dia anterior com a alta quilometragem percorrida por antecipação. Hoje aproximadamente 650 quilômetros me aguardavam até Uruguaiana, já no Brasil. Claro que eu pretendia sair mais cedo hoje, mas acordei tarde, pois dormi tarde e já sabia que pegaria noite na estrada novamente, pelo sexto dia seguido. Saída em direção norte, depois de 60 mil metros, passei pela cidade de Zarate e entrei na Ruta 14, uma reta costeando a face oeste do Uruguai, com asfalto perfeito, permitindo uma boa média de velocidade, com segurança e sem necessidade de pagamento de pedágios para motos.

Depois de rodar sem tirar fotos, moto ligada no modo “me leva pra casa”, paisagem sem graça, cheguei a Concórdia, ainda na Argentina, onde decidi me despedir desse país e entrar no Uruguai. Parei no posto e completei o tanque da moto e ainda o galão extra de 6 litros, fiz um lanche na loja de conveniências e mesmo assim restaram alguns pesos. Melhor assim por segurança. Decidi comprar gasolina extra, para chegar a Uruguaiana sem abastecer mais, e sem precisar comprar a gasolina caríssima do Uruguai e sem precisar trocar dinheiro.

Saindo da Ruta 14, rodei um pouco em direção leste, encontrei as aduanas e fiz rapidamente os trâmites de saída da Argentina e entrada no Uruguai, sempre sem passaporte. Final de tarde chegando e a paisagem no Uruguai é interessante, lindos campos, sol se pondo, estrada pista simples em razoáveis condições. Esse trecho é exatamente o mesmo que fiz no começo da viagem, quando fui de Salto a Uruguaiana fazer a carta verde. Ruta 3, deserta, só eu.

Ainda com um restinho de claridade no céu encontrei a aduana de saída do Uruguai, faço os trâmites e como a moto já estava na reserva coloquei o combustível que levava extra no tanque, que passa a marcar acima da metade, suficiente para chegar a Uruguaiana, no rio Grande do Sul. Na aduana do Brasil, que nessa fronteira não é unificada, passo direto, pois sou brasileiro.

Mais um momento daqueles de olhar para o retrovisor e ver um mundo que passou por ali, lindo, mais um momento daqueles de flashbacks mentais, maravilhoso. Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Cordilheira do Andes, Viña del Mar, Aconcágua, Santiago, Pucón, Carretera Austral. Geleiras, vulcões, gelo, neve, lama, vento. Vinícolas, praias, rios, desertos e selvas, sol e chuva, Pacífico e Atlântico, norte e sul, leste e oeste.

Acabou? Não. Noite fechada e o trecho da fronteira até a cidade, de aproximadamente 50 quilômetros me pegou de surpresa. Rodando a 100 km/h, de repente, no susto, vejo que a estrada tem um trecho grande de terra, plana, lisa, daquela que derruba, mas de novo, sangue frio é a solução, esquece freio e acelerador, esquece de mudar de direção e deixa a moto passar sozinha. Assim saio do outro lado em pé e inicio a frenagem, pois outros trechos assim surgem. Iniciei um acelera e freia chato e perigoso por quase todos 50 quilômetros que faltavam até a cidade gaúcha. Eu deveria saber, pois comigo é sempre assim, sempre tem aquele teste final, aquele momento noturno “acorda que ainda não acabou”.

Sucesso e trecho superado. Vejo as luzes da cidade se aproximarem e vou rodando um pouco no modo “adivinha onde estou indo”, nem eu mesmo sei bem, por acaso acho a avenida principal, pego o sentido certo, entro na rua certa e saio do lado da Concessionária Felice Dafra. Eu aprendi já que às vezes realmente só pensamos que não sabemos algo, mas sabemos sim, só precisa fazer. Não tenho a mínima idéia de como chego a alguns lugares, mas parece que vou lembrando, que sigo o sentido certo, que consigo perceber para onde tenho que ir, que percebo de onde vim, para onde vou, onde está o mar, o norte e o sul.

Desde a loja, tentei me recordar como fiz da outra vez que fui à casa do Paulo, pois nas noites anteriores, fui convidado para lá me hospedar de novo na passagem pela cidade. Consegui em partes, mas como eu levava o endereço, invés de seguir meu sentido, procurei pelo endereço e Uruguaiana não tem placa com nomes de ruas, ou pelo menos a noite eu não achei. Não foi difícil, perguntei pela rua, encontrei, pela casa, encontrei também, e quando parei no portão da garagem o Alyson, filho do Paulo, abanou da janela e veio abrir o portão.

Todos felizes, sentamos para jantar e me fazem uma pergunta: “E ai Marcio como foi?”. Surpreendente minha dificuldade em responder isso. Primeiro porque não acabou. Mas isso eu resolvo respondendo como foi até ali. Segundo que sou metódico, pensei em contar por partes, do começo ao fim, mas eu os levaria a exaustão, seria com ler para eles um livro de no mínimo 150 páginas. Tive que gritar em pensamento comigo mesmo: “Para de bobagem! Você não se prendeu a nada em toda viagem, que isso agora? Põe pra fora!”. E saiu:

“ESTÁ SENDO MARAVILHOSO, FANTÁSTICO, SURPREEDENTE E INESQUECÍVEL”

Diversos outros adjetivos positivos caberiam, mas ai está um resumo. Depois disso, fui jogando na mesa fatos incríveis e desordenados, perdidos no tempo, mas que fazem todo sentido saindo da boca de um cara visivelmente com a mente embebida em êxtase.

A bagagem ficou na moto e a moto na garagem segura. Tomei um banho quente e a Elaine, esposa do Paulo, me avisa que meu quarto está pronto. Os valores mudam depois e durante uma jornada dessas, escutar a frase “seu quarto” é fantástico, sentar a mesa com uma família é um sonho, o momento mais esperado do dia é o banho quente e estar no Brasil passa uma segurança tremenda. O difícil é conseguir tirar o sorriso de orelha a orelha da cara para poder dormir. Pra que pressa, sonhar acordado é um privilégio.

 

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Trelew a Luján

Em 14 de junho de 2012, dei início aos preparativos para saída de Trelew já pelas 10 horas da manhã, novamente como no dia anterior fui perguntado se permaneceria um dia a mais e neguei, usei a internet na recepção para mais atualizações, coloquei as coisas na moto, que como todas as outras vezes estava me esperando perfeita, e mais uma vez pagamento em dinheiro da hospedagem, o que me fez ficar sem pesos. Na cidade postos aceitavam cartões, mas não queria arriscar ir para a estrada assim, sem dinheiro e então fui ao banco. A conclusão é que reais por pesos só mesmo em Buenos Aires e Santiago, e que banco na Argentina tem tanta fila ou mais que no Brasil. Na Argentina, horário de banco é pior ainda, chegaram às 13 horas e eles fecharam, pensei que era para o almoço, mas não, só abre no dia seguinte mesmo.

Fui tentar então num posto YPF, agora estatizado pelo governo, abastecer com cartão e pedir para voltar um troco. Negado. Se fosse fácil não ia ter graça. Fui saindo da cidade, tanque vazio e vejo um posto BR. Expliquei ao frentista e ele disse que sem problemas, enchi o tanque, passamos mais pesos no cartão, botei no bolso e toquei pra estrada já passada às 13 horas.

Contando essa passagem agora, já terei cruzado a Argentina oito vezes de leste a oeste e três vezes de norte a sul, então meu objetivo depois de sair de Chile Chico, minha última cidade na Carretera Austral e no Chile, era pilotar para o Brasil curtindo somente o prazer de acelerar a City por estradas internacionais. Quando cheguei a Coyhaique, depois do pior trecho da Austral, comemorei e pensei que agora era tocar para Brasil na ponta dos dedos, só seria necessário cautela e atenção. Mas justamente eu, que não gosto muito que perguntem para onde vou ou de onde venho, pois tenho dificuldade na resposta, estava com esse sentimento de vitória antecipada demais. Recuso-me a fazer uma viagem com um destino como objetivo, a viagem é a ida e volta completa, eu não fiz uma viagem ao Chile, eu fiz uma viagem que passou por dezenas de maravilhosos lugares, uma viagem sem um destino, onde todas as noites, geralmente perto das 24 horas, decidi que rumo tomar no dia seguinte, passar pela Austral, era sim um dos objetivos da viagem, junto com tantos outros. Conheço pessoas que vão a Ushuaia e voltam em 15 dias, ou seja, a atração foi o asfalto e o objetivo chegar lá no lugar definido. Se for apenas para rodar e curtir asfalto, nada melhor do que ficar rodando na quadra de casa.

Fui obrigado a me recordar que dificuldades podem surgir até o momento de entrar na garagem pela última vez, que a viagem não acaba na metade, que podemos nos surpreender quando menos esperamos por momentos bons e difíceis também. Recordei que no primeiro dia depois de Coyhaique, passei com gelo na inesperada Cuesta Del Diablo, que na Argentina peguei uma inesperada nevasca, e isso tudo depois da “impossível” Carretera Austral.

Qual a opção então? Apesar de ter várias a única que eu aceitava era então comemorar todo dia! E assim fiz ontem à noite quando depois de passar pela nevasca, gelo, neve, tantos me botando medo, como foi em todos os outros momentos, cheguei à noite em Trelew com tudo perfeito, sem problemas, sem pneu furado, sem falta de combustível, sem tombo, sucesso! Soco no ar, grito no capacete! E nesse dia 14, tomei a estrada com esse objetivo, seja qual for o obstáculo, chuva, vento, frio, calor, pista ruim, à noite estarei comemorando.

E sabe o que aconteceu, não choveu, não nevou, segui na pista simples sem dificuldades, sem sono, sem fome, sem pressa, sem problemas mecânicos, sem problemas com polícia, então foi esse o dia de levar na ponta dos dedos, levar a criança pra casa. Entrei pela noite pilotando até chegar, depois de aproximadamente 550 quilômetros, na cidade de Viedma.

Entrando na cidade comecei a pesquisar pelos hotéis, sempre na faixa dos 200 pesos para cima, o que eu estava decidido à não pagar. Rodando pela cidade uma rapaz de moto se aproxima e me pergunta se estou procurando hospedagem, me guia até uma e me passa os telefones e email dele para caso eu precise de algo. O valor pedido era 140, fechei por 120, com café, garagem, internet no quarto, banho quente e calefação, claro que isso nas palavras do senhor da recepção. Adivinha! Lógico que no quarto mal pegava a internet, mas dessa vez eu não aceitei pagar antecipado. Banho e sai para comer algo, caminhei bastante até a praça e sentei num bar muito legal, onde claro, passava futebol e os argentinos a cada minuto faziam “uuuhhhhh” e “uuuhhhhh” de novo nos “quase gols” do Boca. Comi muito bem e caminhei de volta, dessa vez dormindo antes da meia noite, moto na garagem e pela primeira vez neste país dormiu com bagagem embarcada. Esse dia monótono, que eu tanto aguardei me desagradou e pensei que pro seguinte eu tinha que aprontar algo, estar dormindo mais cedo já me trouxe idéias. Dia sem fotos.

 

Em 15 de junho de 2012, acordei aproximadamente oito e meia, sem despertador, mas tomado pela idéia da noite anterior, café e outras atividades como se vestir, hoje foram mais rápidas, guardei na moto somente o tênis, o jeans e as coisas de banho, fui fechar a conta e falei da falta de internet, pedi desconto favorecido por não ser o mesmo recepcionista da noite anterior e bati o martelo nos 100 pesos a noite, pagamento em dinheiro. Agora aprendi.

Moto na rua e pensei que começamos bem hoje. Nada de correria, busquei um posto que aceitasse cartão de crédito e encontrei um BR a caminho da saída da cidade, tanque cheio, pego a saída velha da cidade que passa por uma ponte feita para trens, com um trilho no meio e isso exige bastante cuidado, claro que ninguém pensa na moto quando constrói ruas, estradas e outros caminhos, ali era tocar no trilho e cair, mas passei tranqüilo e antes das 10 da manhã estava a caminho de uma cidade mais ao norte da Argentina.

A idéia de hoje, já que ontem foi monótono, apesar de comemorável, foi fazer mais um teste com a Citycom. Defini uma espécie de hat-trick para essa viagem, ou seja, que ela durasse mais de 30 dias, que rodássemos mais de dez mil quilômetros e que fizéssemos num dia, mais de mil quilômetros. A expressão “hat-trick” tem origem inglesa e remete a um antigo truque de mágica onde o ilusionista tirava três coelhos de uma cartola. Hoje é usada em diversos esportes, como no futebol, quando se marca três gols numa partida, ou em corridas de carro, quando o piloto marca a pole-position, a melhor volta e ainda vence a corrida.

E assim fui de mão no fundo, cabo enrolado, mais de nove mil quilômetros depois da última revisão, quando a fábrica recomenda a cada três, desde Santiago sem troca de óleo, eu exigi mais essa da City. O consumo caiu para próximo dos 20 km/l, um pouco de vento contra, 120 km/h de média, algumas paradas em postos de combustíveis onde não aceitavam cartão de crédito me custaram alguns minutos, mas cheguei à Bahía Blanca, 300 quilômetros depois, aproximadamente às 12 horas e 30 minutos, encontrei um posto YPF lotado, onde abasteci pagando com cartão e entrei na loja de conveniências. Muitas pessoas estavam almoçando uns enormes pratos muito apetitosos, chamei a garçonete e pedi meu “lomo napolitana com papas fritas” igual ao da mesa em frente. Não me lembro de em nenhum momento ter almoçado, mas ali foi irresistível. Maravilhoso, depois para beber e não combinando nada, um submarino argentino, isso é chocolate quente. Saí de lá de tanque cheio, eu e a moto, aquecido, alimentado e me sentindo forte para mais 700 quilômetros. O relógio marcava treze horas e trinta minutos. Estava muito frio, mas não aquele freezer na última regulagem como lá no extremo sul, aqui pelo fuso horário ganhei uma hora e ainda pelo fato de já estar mais ao norte, à noite já tardava um pouco mais a se apresentar.

Com 800 quilômetros rodados no dia, à noite chega de forma completa, numa estrada de pista simples, com movimento por estarmos nos aproximando da capital e já estar na província de Buenos Aires.  Aqui posto de combustível não é mais problema e todos aceitam cartão de crédito. Botei minha gasolina extra no tanque para reduzir peso.

Reduzo um pouco a velocidade. Ainda à noite paro para abastecer, mas logo que saio fico com muita sede e paro novamente para beber uma Coca-Cola. Nessa parada, não tirei capacete nem balaclava. Peguei um canudo e enfiei por baixo da balaclava e assim fiquei sentado um pouco na loja de conveniências do posto. Vantagens de um capacete com queixo articulado é poder abri-lo nesses momentos, e isso fiz muito em postos, hotéis e agora nem pra beber tirava mais. Pensei que, já que era noite, o que ia mudar 10 minutos a mais ou a menos, melhor pilotar sem sede, sem fome, de tanque cheio, com uma única obrigação e totalmente focado na atenção. Aqui novamente percebo outra frase que sempre digo, “o perigo são os outros”, pois alguns motoristas de carros, por conhecerem a pista, por terem melhor iluminação, por não estarem rodando a 800 quilômetros num dia, por não estarem se obrigando a tanta responsabilidade como eu, por terem seguro, por terem a quem recorrer em caso de problemas e também por às vezes pensarem que são o Juan Manuel Fangio, dirigiam numa velocidade incompatível com a pista e eu tinha que estar atento então com o que vinha na frente e atrás.

Como estava decidido, e como não gosto de deixar o serviço pesado para depois, pois no dia seguinte meu objetivo seria entrar no Brasil e teria que passar fronteiras, fui insistente em fechar o dia de hoje com nada menos que mil quilômetros, e isso aconteceu na cidade de Luján. Parei já por volta das 21 horas, procurando hospedagem, encontrei a praça principal da cidade, muito bonita, com uma basílica enorme e na frente um hostel de um motociclista. Recebeu-me muito bem, pediu 80 pesos com café e internet, expliquei da viagem, perguntei se poderia pagar com cartão o que ele negou e me perguntou de onde eu tinha vindo hoje. Apostei com ele, que se ele acertasse pagaria os 80 e se ele errasse ficaria ali por 70 pesos. Ele errou e se surpreendeu com a distância. Botei minhas coisas no quarto muito grande, com sacada de frente para a linda praça e basílica, hostel muito legal, internet funcionando perfeitamente, o motociclista me recebeu com muita simpatia, me ajudou com a bagagem, um preço ótimo, moto embaixo da sacada sob meus cuidados, noite linda. Até que enfim Argentina! Era disso que eu falava o tempo todo. Era isso que eu queria, existe e se está funcionando é porque é possível atender assim. Esse merece e aqui está o site do hostel para quem passar ou for visitar a cidade: www.estacionlujanhostel.com.ar. Sobre a basília de Luján, vale conferir fotos e dados aqui na Wikipedia: http://es.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_Nuestra_Se%C3%B1ora_de_Luj%C3%A1n

Depois do banho quente saio a pé e vou a uma pizzaria bem simples, pedi uma pizza grande, mas só comi a metade, na hora de pagar não tinha cartão, então lá se foi quase todo dinheiro. Sim, antes eu perguntei se tinha, mas o meu é Master e pensaram que era Visa. Perguntam de onde sou, explico algumas coisas, na grande tela do computador abrem meu site, outros que estavam ali ficam admirados também, e ai a conversa vai e vem, chega às 11 da noite e começamos a falar da presidente Cristina Kirchner. Visível que a população mais pobre gosta dela, apesar da subida de preços, eles dizem que agora podem comprar, incentivados pelos programas de assistência social. Consigo dar um fim no papo que estava ótimo como a pizza, e apesar do grande trabalho ter sido feito hoje com sucesso, o dia seguinte me reservava 700 km até o Brasil.  

Preciso dizer que comemorei? Preciso dizer que a Citycom é fantástica? Estou cansado? Não! Tive algum problema mecânico? Não! Chegando ao hostel vejo a City na calçada e dou um sorriso para ela que me olha com cara de feliz, e parece me dizer: “Sou como você, duvida de mim para ver!”

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C. Rivadávia a Trelew

Em 13 de junho de 2012, amanheci na capital do petróleo argentino, Comodoro Rivadávia, sem pressa nem despertador, comecei a vestir o equipamento e arrumar as malas. Como no quarto não pegava o sinal da internet, fui à sala da hospedagem para ainda responder emails, postar dados, mapas no site e outras atividades. O quarto tinha boa calefação então não senti o frio, mas fui surpreendido pela neve que caía, ao olhar pela janela.

Claro que minha companheira me aguardava firme e forte na porta, ninguém teve a ousadia de tocar ou levar ela para longe de mim. Passava das 10 horas da manhã e claro que como eu estava na Argentina, logo veio àquela pergunta: “O senhor vai se hospedar mais um dia?”, pois eles sempre exigem que mesmo que não haja nenhum outro hóspede, que você entregue o quarto às 10 da manhã, não importa se cheguei às 9 horas da noite, que a internet prometida não funcionava e nem que paguei antecipado.

Peguei todas as minhas coisas e botei na sala, liberei o quarto, e fiquei usando o computador. Pensei que a neve fosse para ou diminuir, mas ela aumentou, o frio seguiu intenso, pensei em ficar mais um dia aguardando, mas queria voltar ao Brasil. A moto já estava de tanque cheio, montei a bagagem e parti já passada às 13 horas. Encontrei fácil a saída da cidade e mesmo nevando peguei a estrada. Um fato complicador na pilotagem na neve, é que ela cola na viseira, não escorre, e não sai fácil nem mesmo passando a luva. E a estrada seguia ondulada, pista simples e escorregadia, e com acostamento de lama, só não era pior que o da Ruta 14 onde atolei ao sair da pista.

Percebi que a neve estava forte, que a pista realmente estava com muita neve e eu iria subir para um trecho mais alto, então avistei um carro 4×4 no acostamento, com dois homens trocando o pneu furado, parei para falar com eles que afirmaram que era bom pegar uma informação com a polícia sobre a passagem à diante, se estava aberta, pois eles não tinham vindo do mesmo sentido que eu ia. Então voltei uns 10 km até o posto da polícia. Informaram que havia bastante neve, mas que uma máquina limpava a pista e que era possível passar com cautela. Na frente do posto policial havia um posto de combustível BR, onde completei o tanque e o galão extra. Voltando à pista outro policial no mesmo posto me para, e vê que sou brasileiro e começa a contar que esteve no Brasil, me falas umas palavras em português, pergunta de onde sou e para onde vou, e isso tudo, seguindo o padrão argentino, eu parado no meio da pista, uma fila de caminhão atrás e ele de papo furado me atrasando. Quando eles vão aprender a pedir para as pessoas encostarem o veículo no acostamento? Talvez depois que construírem o acostamento.

Eu estava totalmente decidido a seguir viagem e assim fiz, a estrada ficou totalmente tomada de neve, ainda ganhei um pouco de altitude, frio fortíssimo, neve caindo e apesar do pouco movimento, talvez por já passar da metade da tarde, havia um trilho na neve, eu rodava onde as rodas dos caminhões passaram, a uma velocidade entre 50 e 60 km/h e sempre temendo o gelo no piso. Muito diferente da neve, que funciona como uma areia e tranca o avanço da moto, também desliza, mas não como o gelo no piso que torna quase impossível rodar por deslizar demais.

O cenário era incrível, branco de todos os lados, inclusive em cima e embaixo, impossível de ver o começo e o final da estrada. Para minha surpresa avistei um carro indo na minha frente e decidi que manteria uma distância segura e ele serviria de guia, sem dúvidas a roda dele iria abrir um caminho mais novo, e eu iria perceber as condições da pista com o aumento ou redução da velocidade dele. Preocupava-me o avançar das horas, o frio em excesso, a baixa velocidade, e eu ficava aguardando o momento em que eu sairia da neve, em que aquilo iria passar, em que eu poderia rodar a pelo menos 90 km/h, pois a próxima cidade estava a 300 km de distância, e já passando das 14 horas nessa velocidade a estimativa de chegada seria às 20 horas, ou seja, continuar assim era impossível pois noite ali era certeza de hipotermia, e ainda um problema mecânico sem dúvidas levaria a situação de abandono da moto e pedir carona para fugir do local.

Se eu conseguisse gravar tudo que eu penso na estrada seria ótimo, pois é muito mais interessante que dados técnicos e relatos de frio e calor e estado de estrada. Mas ainda sinto essa dificuldade de transpor aqui depois de chegar ou depois de dias dos fatos. Mas o pensamento de abandonar a moto sempre esteve comigo, por estar só, noite chegando cedo, frio extremo, estrada sem movimento, sem socorro, e no caso da Carretera Austral no inverno, uma selva congelada, salvar-se é sempre a prioridade.

Percebi que o carro começou a reduzir demais a velocidade, me aproximei, senti que estava tudo bem com a estrada, não entendi o motivo e mesmo sem querer fui obrigado a passar vendo o carro com duas pessoas dentro, falhando e aos trancos. Continuei observando pelo espelho e o carro parou no meio da estrada. O motorista abriu a porta e saiu, deu uns socos no carro no mesmo tempo que dei uns tapas comemorativos na Citycom, pois o carro falhou e nós passamos, seguimos, eu e ela, uma Scooter, uma moça jovem e forte.

Raras vezes eu vi o indicador da temperatura do líquido de arrefecimento indicar redução de temperatura, ela é sempre muito equilibrada e trabalha na mesma temperatura, sempre a ¼ acima do mínimo, mas hoje estávamos até com neve no radiador, que é baixo, próximo ao solo e roda dianteira.

Rodei bastante nessas condições, mas a estrada começou a descer e aos poucos a neve foi parando. Parei num posto, que não aceitava cartões de crédito, completei o tanque, e entrei na loja de conveniências para descongelar. Pedi o tradicional submarino argentino, muito quente e o melhor de tudo é agarrar a caneca com as duas mãos. Comi uma barra de chocolate e outro submarino. Cada um que entrava na loja se espantava e invariavelmente perdia uns segundos no frio observando a moto, vinham falar comigo e perguntavam do frio, de onde vem para onde vai. Fiquei quase uma hora lá dentro me aquecendo. Verifiquei que passava um pouco das 17 horas, noite caindo, e tinha ainda exatos 200 km até a cidade de Trelew, sem dúvidas o lugar eleito para pernoitar, já saindo do propósito de não rodar à noite.

Um dos que conversaram comigo na loja era caminhoneiro motorista de uma cegonha e ofereceu-se para colocar a moto em cima e que eu fosse de carona com ele, mas agradeci, vesti balaclava, luvas, capacete e paguei a conta de mais de 50 pesos, mais caro que muitos almoços e jantas, mais caro que o abastecimento. Segui tranqüilo, à noite, rodando a 110 km/h, sem problemas algum cheguei a Trelew, onde busquei hospedagem e ainda uma cidade com altos preços para a média que eu vinha pagando, depois de passar por quatro encontrei um satisfatório por 130 pesos.

O garoto da recepção tinha uma moto Ybr 125 fabricada no Brasil, e o incrível é que lá ela é vendida por menos que no Brasil, mas ainda assim, nesse ano passou a ser fabricada pela Yamaha da Argentina. Ele foi bem gentil, informou que a internet não alcançava o quarto e eu mais calejado foi enfático na pergunta, me auxiliou a subir com a bagagem da moto, pois ela dormiria na frente da hospedagem e de novo eles apavorados com isso. Em um momento eu estava ainda na recepção e a proprietária entrou perguntando sobre o que eu faria com a moto, eu sempre afirmando que ficaria onde na beira da calçada e ela pediu que ao menos, enquanto eu preenchia dados para hospedagem, eu fosse à moto retirar a bagagem. Chegando lá, dois policiais já me aguardavam intrigados com a moto carregada de coisas e com a filmadora, e me informaram que era inseguro deixar ali, achei engraçado a própria polícia te avisa que não tem segurança, só faltava me multar por estacionar na rua. O garoto gentil então me avisa que às 24 horas ele sairia e deixaria o cadeado que atava a moto dele ao poste para que eu fizesse o mesmo com a minha, e assim fizemos às 24 horas, pois depois de um banho quente no quarto fiquei na recepção usando a internet.

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Chile Chico a C. Rivadávia

Em 12 de junho de 2012, amanheceu um dia daqueles que me deixam feliz, céu azul naquela cidade à beira do lago. O Lago General Carrera é enorme, o maior do Chile, mas uma parte dele está na Argentina, e lá se chama Lago Buenos Aires, a superfície dele tem 1.850km2 e chega a 590 metros de profundidade, maior que ele na América do Sul, apenas o Titicaca, que ainda espero conhecer.

Pulei da cama mais cedo, percebi o movimento dos amigos se preparando para partir e tomei café com eles. Despedidas e desejos de boa viagem, entreguei meus seis mil pesos a dona da hospedagem, me restaram duzentos pesos, duas moedas de cem, ou seja, um real. Sim, isso mesmo! Não errei a conversão, cheguei à saída do Chile com exatos um real, por um lado era ótimo, tudo que saquei foi usado no limite correto, mas o imprevisto, que sempre acontece, afinal não sou profeta para prever tudo, era o fato de eu ter encontrado o primeiro posto de combustível chileno que não aceita cartão de crédito nesse dia.

Esta noite novamente, no padrão de confiança chileno, deixei tudo na moto, ressalto isso sempre, pois tenho algumas coisas embaixo do banco da Citycom fechadas à chave, mas todo o resto, malas laterais, barraca, saco de dormir, tudo fica preso apenas com elásticos e qualquer um pode pegar e levar enquanto durmo, mas nunca aconteceu e a moto passou a noite nos fundos da hospedagem.

Equipamento vestido, fui de moto até o mirante da cidade para sacar belas fotos e apreciar a manhã. Como em quase toda cidade do sul do Chile, em razão do frio e falta de aquecimento a gás, percebe-se no ar a fuligem da queima de lenha para aquecimento das residências. Sempre nesses momentos à vontade é passar ali o dia apreciando. Tudo isso que o homem não constrói me impressiona. Algumas pessoas gostam de ver prédios, museus, igrejas e esculturas. Eu vejo também e aprecio, mas não me prende, agora certamente uma paisagem dessas me hipnotiza.

Desci do mirante e na avenida principal da cidade, encontro um senhor descendo de uma van com escritos que indicam fazer turismo entre Argentina e Chile. Pergunto para ele sobre casas de cambio, bancos e postos de combustíveis na cidade fronteiriça Argentina chamada Los Antiguos. Em Chile Chico, impossível, trocar reais, sacar dinheiro com cartão de crédito e abastecer a moto, então, decidi ir com a gasolina que me restava até o país vizinho. Ficou a maravilhosa lembrança do Chile, estava ali me despedindo desse país de pessoas honestas, gentis e que sabem como receber. Saí do Chile, depois de conhecer de norte a sul de leste a oeste, nessa e em outras viagens que fiz, faltando somente um lugar, que talvez um dia a oportunidade surja, e me leve até lá, o Parque Torres Del Paine.

A passagem na fronteira foi super fácil, tranqüila, saída de um e entrada noutro, rodei mais uns milhares de metros e cheguei à cidade de Los Antiguos, direto no posto de combustível. Surpresa, não aceita cartões de crédito.

Fui então ao único banco da cidade, uma fila gigante, mas fui direto ao gerente que me sugeriu tentar o saque de pesos com cartão de crédito no caixa eletrônico, não consegui e voltei, ele disse que iria me ajudar, mas o banco estava tão cheio que me cansei de ficar ali. Ao sair falei com um senhor do lado de fora, perguntando se alguém fazia cambio, e ele sugeriu que eu fosse até um restaurante falar com o proprietário que costumava fazer cambio para turistas. Fui e a solução foi passar 330 pesos no cartão e receber 300 pesos em dinheiro, suficiente para seguir com folga. Abasteci no único posto da cidade, tanque cheio, pesos argentinos no bolso, segui rodando mais uns 50 km e cheguei a Perito Moreno, paro num posto BR e completo o tanque pagando com cartão. Na Argentina existe sempre o temor de pagamento somente em dinheiro.

Lago General Carrera no espelho rodeado de montanhas de picos nevados, já passava das 13 horas e tinha pela frente mais de 500 km até Comodoro Rivadávia, meu objetivo do dia. Nesse trecho foi nítida a chegada na Argentina. Para quem já rodou nesses dois países de moto, e tem certa percepção, nota que até o cheiro muda, as retas nas estradas, os ventos, estrada pista simples.

A estrada pista simples oferece uma dificuldade a mais. Quando um caminhão cruza no sentido contrário, pelo fato de todos serem enormes e rodarem sempre acima de 100 km/h, o vento que eles produzem me faziam quase sempre perder 10 km/h de velocidade e ainda levar um soco de vento e isso independe da moto utilizada, mas quanto mais proteção aerodinâmica ela tiver, melhor, pois ela sofre o impacto e você cansa menos, ainda assim, eu cuidava em me equilibrar bem e até mesmo já inclinar a moto um pouco para dentro da pista, pois o vento te joga para fora. Isso pode ser agravado se já existir um vento contrário natural, ou reduzido se o vento estiver a favor. Quem já rodou de moto acima de 200 km/h, sabe que o vento exerce uma força que nos exige fisicamente, e em diversas situações, somando o vento contrário do caminhão ao da velocidade da moto, chegamos a mais de 200 km/h de vento com facilidade, e isso de forma repentina, como uma parede de vento, repetida vezes. Pista dupla com uma proteção central tem diversas vantagens além de segurança, na moto cansam menos, não prejudicam o consumo e velocidade como as pistas simples.

Nessa região abasteci a 4,7 pesos o litro de gasolina, utilizando sempre a mais barata, que aqui chamam de super. O manual da motocicleta faz apenas uma recomendação, boa gasolina e sem chumbo, o que esse combustível estava suprindo, e com uma diferença grande para a gasolina brasileira, aqui não há aquela adição de álcool e com octanagem mais alta.

Tempo bom, dia bonito, estrada boa, apesar de simples, o incomodo era apenas eventualmente um vento lateral agravado pelo vento contrário de outros veículos grandes. Como era um trecho sem atrações, não parei para fotos, acelerei para chegar a Comodoro pegando o mínimo possível de noite, fazendo apenas paradas para abastecimento. Não foi necessário usar gasolina extra, encontrei postos que aceitavam cartão de crédito, tudo tranqüilo. O que me desanimou um pouco foi que toda entrada e saída das cidades que ficavam nesse trecho eram cercadas por lixões, mas não aterros sanitários, eram quilômetros de lixo espalhado e voando. Esses detalhes são imperceptíveis em nossa rotina, lembrei do Brasil, de Florianópolis e diversas outras cidades que são assim também. Elas podem até ter atrações que muitas vezes o turista nem alcança, mas eu já sinto uma decepção, um desânimo na entrada feia.

Depois de rodar bastante chego novamente ao oceano atlântico, ou seja, pela oitava vez cruzei a Argentina toda de leste a oeste e a Citycom cruzou a América do Sul de leste a oeste duas vezes, na ida e na volta. Estou então na ruta 3, tradicional estrada que leva a Ushuaia, tomo o sentido norte em direção a Comodoro Rivadávia, uma parada para foto nas quase infinitas praias de pedras.

Estrada com muita ondulação, e comecei a rodar até mesmo numa velocidade menor que alguns caminhões, pois estava com tempo, cheguei ao oceano atlântico ainda com final de dia, e estava próximo da cidade, sem pressa, mas foi necessário administrar a passagem pela estrada em condições ruins com a velocidade segura no meio dos caminhões, que são fartos na região produtora de petróleo. A vantagem é o valor do combustível, que na cidade cheguei a encontrar por 4,1 pesos.

Já estive nesta cidade em outra viagem e meu interesse era apenas pernoitar, só não contava com o alto valor das diárias, rodei bastante até o centro da cidade e diversas voltas até decidir pela melhor opção de hospedagem, por 150 pesos, calefação, internet, banho privado e sem café da manhã. A moto dormiu na frente da hospedagem e eu fui ao supermercado comprar um lanche. Sentei na parte de restaurante da hospedagem, claro que conversando com as pessoas que lá estavam, e depois de ter feito meu lanche, um dos amigos que estava conversando foi buscar uma pizza, disse que pediu pequena, mas lhe deram uma grande então compartilhou comigo. Segunda noite seguida de pizza, mas eu adoro e pode mandar a terceira que eu me agrado, ainda mais a convite.

Mas a diferença de Chile para Argentina já se faz presente na chegada, além da estrada simples em más condições, entradas de cidades sujas e feias em relação as chilenas, na hospedagem você tem que pagar na entrada, e mesmo com a experiência anterior eu fiz isso, cheguei no quarto e lá a internet não pegava, apesar de eu perguntar, calejado que estou com esse fato, e recebi a afirmativa da recepcionista. Toda bagagem da moto estava já no quarto, eu tinha trocado de roupa, estava quentinho, não perdi meu tempo reclamando, sentei na sala onde pegava e cansado fiz o uso mínimo da internet, pois queria ir descansar. Aqui, além de tirar tudo da moto, fui questionado dezenas de vezes se a moto iria dormir na rua, eu respondia sempre que sim, mas eles revelam que moto que dorme na rua não amanhece no mesmo lugar no dia seguinte. E assim é o bem vindo à Argentina, ruim, caro, inseguro e nada simpático.

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La Junta a Coyhaique

Em 09 de junho de 2012, manhã fria e iniciei por vestir peça por peça do equipamento, isso leva sempre aproximadamente 20 minutos, pois são dezenas de peças, uma sobre a outra, camada por camada, mais protetores de pescoço e de coluna, balaclava, capacete, coloca a Go Pro na moto e pronto.

Enquanto eu me aprontava, a dona da hospedagem veio duas vezes perguntar se eu ia fazer o pagamento. Acho que ficou um pouco assustada porque eu andava equipado e pensou que ia me escapar, também acho que é tão raro alguém passar por lá agora que a sede dela pelos meus rarefeitos pesos estava grande. Então meu lado implicante floresceu, pois não gostei da desconfiança e eu aprontei tudo mesmo, cheguei a colocar a luva esquerda, liguei a moto antes de ir pagar, acho que ela quase morreu de angústia. Fui até ela e uma em cima da outra.

A moto com um pouco de gelo, já passava das 10 horas da manhã, pegou de primeira, como todas outras vezes, independentemente da temperatura, da hora, chuva ou sol. Segui a filosofia de sair na hora que estivesse pronto, sem correria, sem despertador, pra rodar o que fosse possível. Na hora do pagamento a senhora da hospedagem, eu digo a ela que pretendo ir a Coyhaique, e ela de pronto responde que não é possível, que a estrada tem gelo, lama e está muito ruim. Eu acreditei nela na parte da estrada, mas não na parte do não é possível, ai eu acreditei mais na minha idéia mesmo.

Estava ansioso para ver a reação da moto, com menos peso e pneu novo, estava numa torcida enorme para ao menos sentir uma diferença positiva. Fui ao posto, tanque cheio e duas garotas que não conseguiam bem operar o computador do caixa e o cartão de crédito me levaram a sair de La Junta pelas 11 horas da manhã. Ótimo, pois assim o gelo, deveria estar já derretido, não que isso me animasse muito, pois ele dá lugar a lama que escorrega também.

Opa, tudo bem que a saída da cidade tinha a estrada um pouco mais bem tratada, mas eu saí animado, até me estranhei com a velocidade que consegui desenvolver, e já veio aquele pensamento de que quanto mais confiante maior o tombo, fui sentindo a moto, o piso, só não gostei do dia não estava com céu azul. Pensei que a Citycom ficou feliz de sapatos novos e estava animada também. Pneu novo faz uma diferença enorme sim, principalmente em motos, que são veículos mais leves, mais sensíveis, com pneus mais macios, com duas rodas e área de contato com o solo infinitamente menor que um carro.

Não fiquem pensando que é só sofrimento a viagem, eu adoro pilotar e nessa saída, mesmo sozinho, mesmo na Carretera Austral, mesmo com um penhasco do lado eu mandei ver na máquina, sem pena, chegando a desenvolver 90 km/h na terra molhada com buracos e curvas. Não penso que arrisquei demais. Crianças brincam de certas coisas extremamente arriscadas também, geralmente os pais nem imaginam e me lembro bem o que eu fazia.

Aqui na Carretera Austral, não precisamos nos preocupar em tirar foto no primeiro lago bonito, nem na primeira ponte alaranjada, nem no primeiro rio de águas claras que desce da montanha. Eles são abundantes, realmente lindos, a paisagem é fantástica, estava na natureza selvagem.

Por diversas vezes parei para apreciar a paisagem, as pontes e os rios, olhar para as montanhas com neve. Mas tirar foto não, pois tinha que tirar as luvas e o frio estava demais. Logo mais cheguei a Puyuhuapi, aproximadamente 40 km depois de La Junta e que tem  500 habitantes. Sempre cauteloso, sabia que ali havia um posto Copec e entrei na cidade para abastecer. Não tinha ninguém no posto de duas bombas, mas logo apareceu, pois escutou o barulho da moto o responsável pelo abastecimento. Incrível o preço, 925 pesos chilenos, quatro reais aproximadamente. Mas incrível também que havia como pagar com cartão de crédito, coisas de Chile. Na saída da cidade, há uma subida e uma vista linda do lago enorme que chega à porta da rua principal. Impossível não tirar uma foto ali.

Aqui o vídeo desse trecho: http://www.youtube.com/watch?v=p03SYKKAC7I&feature=youtu.be

Seguindo à diante, encontrei a placa que indicava o caminho para chegar ao Ventisqueiro Colgante, claro que entrei lá com a moto. Como em Pucón, também estava lá a recepção a placa do valor de ingressos e a porteira aberta sem ninguém nem guia, nem controles. Fora de época tem suas vantagens, como ter ficado de dono de diversos parques e atrações, e ainda pousadas. Caminho pela trilha super fechada, molhada, novamente todo equipado, mas dessa vez deixei a mochila na moto, levei só a máquina de fotos. Cara a cara com o gigante gelado, fotos e volto pela trilha. Na hora de sair na estrada, como sou super esquecido, não me lembrava de que lado tinha vindo, pois existiam duas placas idênticas dos dois lados, rodei para um lado e para outro na frente da entrada até que sai um homem de dentro da casinha à beira da estrada, na entrada do parque e eu pergunto para ele a direção de Coyhaique. Um daqueles momentos de sorte.

Aquela tocada emocionante teve uma conseqüência gravíssima. O guidão começou a se soltar, ia para frente e para trás e para um lado e para outro, deixando a roda dianteira um pouco solta, às vezes tomando o rumo lateral sozinha. O tempo fechou e começou a chuva leve, que molhou mais ainda o piso de lama. Eu sabia que estava no caminho certo e que o pavimento uma hora havia de aparecer. A estrada estava muito fechada, de maneira alguma passam dois carros de forma rápida em sentidos contrários, ela é super estreita e com a lateral numa inclinação que suga a moto. Uma pick-up aparece em sentido contrário, eu faço sinal para parar e pergunto quantos quilômetros para começar o pavimento, mas a resposta não é precisa, me diz que quando baixar do outro lado da montanha tem pavimento.

Eu estava congelando, principalmente os pés, o guidão estava quase saindo na minha mão, a viseira tinha que ficar um pouco aberta para não embaçar demais, o chão estava deslizando absurdamente, estava chovendo, a estrada estava apertada, cheia de buracos, a noite estava chegando e no meio do mato, cercado de árvores altíssimas, aparentava ser muito mais escuro, além do céu cinzento, e ainda recebo a notícia que tenho que atravessar uma montanha. Era o parque Queulat, que se encontra na província de Aysén e o seu ápice é o monte Alto Nevado, com 2.255 metros acima do nível do mar.. Na verdade o Ventisqueiro Colgante já estava no Parque Queulat, mas essa montanha me apavorou. A média anual de temperatura nesse parque é de 4 a 9 graus e a precipitação média é de 3.500 a 4.000 mm.

 Iniciei a subida da montanha, bem assustado e realmente pensando que o mais difícil tinha aparecido. A moto não podia parar ali, era botar a vida em risco se algo de errado acontecesse. Ninguém passava, e fui tocando a 20 ou 30 km/h, fazendo as curvas da subida da montanha, de 90 graus, a 10 km/h. E sempre torcendo que a descida aparecesse. Mas subi, subi, subi, subi tanto, e passando por tanto buraco que o guidão afrouxou mais e tudo no entorno estava congelado e coberto de neve até que numa das curvas da subida a moto derrapou bem forte, me levando a pensar que o pneu traseiro tinha furado, mas não, era o gelo no chão. Pronto, estava formada a condição que eu mesmo diria que é impossível e eu mesmo não tentaria atravessar aquilo nem que me pagassem. Qual opção? Somente seguir, cauteloso, acelerando na medida de manter-se de pé e seguir em frente. Depois de muito trabalho, ofegante, frio e cansaço físico extremo, começa a sonhada descida. Sonho? Equivoquei-me, pesadelo. Pois a descida assim como a subida é íngreme e naquelas condições eu comecei a descer com a roda traseira travando, 10 km/h e os dois pés enfiados na lama pra não deixar a moto aumentar a velocidade. A situação era absurdamente difícil e arriscada. Eu não tive a ousadia de olhar para o painel, para não aumentar o susto, mas eu estava a mais de 1h naquela montanha. Eu apertava tanto as manoplas que minha mão direta doía bastante.

E eu que tanta piada fiz sobre voltar só com o guidão na mão, em diversas situações em que andei em estradas difíceis, ali estava com a situação de fato. Acredito que a mais difícil da minha vida no motociclismo. Eu nenhum momento eu pensei que não era capaz de atravessar a montanha, me preocupava com falha mecânica, pneu furado, noite chegando, já pensava o que ia fazer se algo acontecesse, como ia pedir socorro. Nesse local nem mesmo era possível montar a barraca em caso de problemas, pois eu iria me molhar todo, não ia suportar o frio e neve da noite, e não havia lugar mesmo. Preocupante era cair na lama com gelo e ficar com o corpo molhado. Segui, segui e segui, avançando metro a metro. Ninguém passou, mas eu, sozinho encontrei o pavimento em Los Cisnes. Eu parei a moto, desci dela, esqueci frio, chuva lama, dei uns gritos de celebração dentro do capacete, uns pulos de felicidade, uns socos no ar, e nesse mesmo instante tudo aquilo invés de dificuldade se tornou uma vitória, uma lição, uma história e uma vitória. Eu olhei para a Citycom coberta de lama e nunca achei tão linda. Parecia dizer para mim que não duvidasse dela. Aos meus olhos estava tanto ela como eu maiores do que realmente somos. Depois dessa existe algo capaz de nos parar? Então vamos seguir que Coyhaique nos aguarda.

Acelerei forte, dominando a frente solta, estrada linda, mas molhada, ainda parei para algumas fotos, abasteci mais uma vez, enfrentamos mais uma montanha, com pavimento, e avistei Coyhaique do alto, já de luzes acessas. Luz do sol rarefeita. Lembrei-me da senhora me dizendo ser impossível, de outros achando um absurdo essa scooter na Carretera Austral, outros apavorados com a viagem solo e ainda uns com a época escolhida. E disse para mim mesmo, acho que até em voz alta, pois eu falo diversas vezes dentro do capacete, que foi fantástico, que valeu cada metro de aventura, que vencemos.

Entrada na cidade, procura por hotéis, caros, optei por um intermediário, com banho muito quente, quarto só para mim, espaçoso, recepção educada e preço que valia a vitória. Deixo a moto com tudo em cima, banho, troca de roupa e saio para comer num lugar muito legal, Mamma Gaucha, uma pizza grande toda para mim e muita coca-cola, deliciosa, os Chilenos comemorando a vitória no futebol sobre a Venezuela e a classificação para participar da copa no Brasil. Senti como numa festa para mim, no gol eu sentia com se o eu fosse o artilheiro. Fantástico! Consegui! Fui dormir com essa frase na cabeça:

“Já temos a primeira Citycom 300i do mundo a passar pela Carretera Austral”

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Chaitén a La Junta

Em 08 de junho de 2012, o desembarque em Chaitén/CH foi muito tranqüilo, desde a parte interna do navio até terminar de atravessar a rampa. Depois já foi possível constatar o piso coberto de gelo. O capitão, que nada tinha falado comigo até o momento, uma figura de cara bem fechada, soltou lá fora suas palavras: “cuidado, escarcha”. Significa que tem gelo na pista. Terminei de botar luvas, saquei uma foto, quando ia fechar o capacete vem um carro 4×4 descendo a ladeira com as quatro rodas travando, para na minha altura e uma mulher de carona abre o vidro e fala: “muito corajoso, não passe de 40 km/h”. Isso tudo foi em menos de cinco minutos.

Tudo pronto e já o começo é derrapando para sair do porto. Curioso, chego ao centro de Chaitén e realmente incrível a cidade destruída pelo vulcão em 2008 estar assim até hoje. Parece filme, fiquei pensando na situação da necessidade de abandonar sua casa, pois o vulcão ao lado está cuspindo cinzas que cobririam a cidade. As casas estão lá, de portas fechadas, algumas não agüentaram o peso das cinzas e caíram, outras somente com vidros quebrados. Percebi o topo do Vulcão Chaitén expelindo fumaça constantemente. Saquei fotos, tira e põe luvas, sigo à diante com precaução e saio da cidade. Estrada branca de neve, perigo está vestido de noiva, numa reta a 60 km/h a moto simplesmente sai debaixo de mim e eu levo um deslizante gelado de metros deixando uma marca no chão. Nem deu tempo de pensar nada antes de cair. Só pensei depois de estar no chão. O que mais pensei repetidamente era o fato de ter caído nos primeiros 20 km da Carretera Austral, fazendo as contas, em 500 km seguindo nessa média eu ia cair ainda 24 vezes. Certamente o meu chassis (corpo) não ia agüentar e nem mesmo a moto. Já achei sorte quando constatei que com a moto nada houve além de um ralado na parte baixa da carenagem e comigo só um pouco dolorido, mas pouquíssimo. Levantei a moto, botei no canto da estrada e ai sim tirei foto. Sei que algumas pessoas tem o sangue frio de cair, tirar a foto e depois levantar a moto, mas eu pensei ainda que poderia vir um carro, pois eu estava perto de Chaitén e parar naquele gelo ele não ia conseguir, além de estar com tanque cheio mais combustível extra no galão.

Qual minha opção no momento? Seguir à diante, reduzir a velocidade, mas mesmo assim estava muito difícil pilotar, até mesmo em pé era difícil caminhar, então segui a aproximadamente 30 km/h com os pés arrastando no chão. Isso abaixa demais o centro de gravidade da moto e garante um equilíbrio extra, mas uma conseqüência, meus pés ficaram extremamente gelados com a neve e o gelo que batia nas botas. Por mais incrível que pareça, eu comecei a torcer para que o pavimento terminasse, já que ele está apenas perto da cidade, mas nessa velocidade, tudo demora a chegar. Quando chegou a parte de terra, surpresa total, a dificuldade continuou a mesma. Obviamente na parte de terra também havia gelo, mas uns quilômetros depois o gelo quebrado e derretendo virou uma lama lisa, que brilhava com a luz do sol. Segui na mesma velocidade, na mesma posição e agora além dos pés congelados, a bota cheia de lama gelada, mas só por fora. Nem mesmo na queda passou gelo para parte interna do equipamento. Na queda a maior pancada foi no quadril e cotovelo, mas a escolha certa do equipamento de proteção me salvou.

A primeira cidade estava a aproximadamente 150 km, La Junta/CH. Fiz as contas e pensei que se fosse possível rodar sem parar, a 30 km/h, eu chegaria lá às 14 horas. Não incluí na conta possíveis tombos. Então assim fui, tendo que engolir o coração a cada minuto, ofegante, segurando o guidão força, viseira semi-aberta, pois a respiração embaçava tudo, pernas cansando pela posição. Estava tenso, cansado e com medo, mas ao mesmo tempo, pensando que ali eu estava, na temida Carretera Austral, com a Citycom, aquele era o momento de acertar tudo, de ser perfeito e me concentrei apenas em uma coisa, tirando todas as contas, preocupações, cidades, lugares e possibilidades da mente, para chegar a La Junta. Tentei não olhar para o painel, pois era só decepção com a velocidade e quilometragem percorrida, e isso me causaria angustia. Aquela frase “devagar e sempre” nunca fez tanto sentido como agora.

No caminho vi placa que indicava o Ventisqueiro Yelcho, entrei e parei a moto assim que começava a trilha, todo equipado, peguei a mochila com coisas importantes e caras e segui o caminho a pé, mata fechada, sozinho, de capacete e luvas. O Ventisqueiro é lindo, enorme, impossível de por fotos passar toda emoção de vê-lo, pois não retrata bem a distância, o vento, o barulho do gelo e água do derretimento caindo. Não demorei muito, voltei e segui.

Cheguei em La Junta realmente por volta das 14 horas, parei no posto Copec, estava decidido a dormir ali, perguntei do horário de funcionamento, para ter certeza que seria possível abastecer no dia seguinte ao sair, procurei onde ficar. Existiam na cidade algumas opções, fiquei na que tinha internet e pagamento com cartão de crédito. Hopedaje da Marisel. Deixei a moto na frente e subi para tomar um banho. O banho não estava muito quente, como eu gosto, no modo descongelar, e o chuveiro batia no meu ombro. Não demorei, pois não estava gostosa a situação e pensei que tinha que fazer algo em relação a Cyticom. Decisão número um foi botar o pneu novo na frente. Procurando pelo povoado, encontrei depois de passar por três, um que topou fazer o serviço. Ele não tinha a mínima noção, pois ali não existe moto, mas eu tinha, só não tinha como tirar o pneu da roda e colocar novamente, pois a roda sair da moto é fácil, dois parafusos.

A parte que eu sabia foi simples, agora tirar o pneu da moto, deu trabalho, tentou de diversas formas, claro com a roda no chão, arranhando tudo, depois de martelada de todo lado saiu, colocou o pneu novo, martelada, roda no chão, toda picada, pintura descascada, como a traseira está também, roda na moto, pagamento de 2.000 pesos, voltei na Marisel.

 Decisão número dois foi comer tudo que eu levava de comida extra, pois tinha doce, suco, pão, e isso fiz durante a noite e manhã seguinte. Decisão três foi botar os 5 litros de gasolina extra no tanque e levar o galão vazio. Meu objetivo foi baixar o peso da moto, pois então estava agora com mais de dez kg a menos e esperava mesmo que isso fizesse uma diferença sensível. Justamente eu que sempre digo que a moto deve ir estar o mais leve possível, me lembrei disso e também fiz uma pequena limpa em papéis, guias, revistas e etc. Antes de dormir botei a moto próxima ao vidro da sala da pousada, deixei malas, barraca e tudo mais na moto, que às 8hrs já estava com um pouco de gelo. Subi ao quarto, onde eu não conseguia nem tirar as mãos debaixo das cobertas para escrever no site, alguns cachorros na rua latindo me incomodavam, mas o cansaço vence sempre e dormi com o notebook ligado me esquentando mais.

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Chiloé a Chaitén

Seguindo no mesmo dia 07 de junho de 2012, achei que os fatos que vou descrever mereceram um post exclusivo.

Após o desembarque tranquilo no Arquipélago Chiloé, que muito me surpreendeu, pois tudo que eu li sobre o Chile, não fazia nenhum tipo de destque ao arquipélago, nada havia me chamado a atenção nos estudos anteriores a viagem, segui rodando lentamente, a uma média de 100km/h. Estava com tempo sobrando para chegar no porto antes das 15:30hs.

Chiloé é um arquipélago ao sul do Chile. Além de um grande número de ilhas de menor tamanho, compreende a Ilha Grande de Chiloé, a quinta em tamanho da América do Sul (depois da Terra do Fogo e as ilhas brasileiras de Marajó, Bananal e Tupinambarana) com aproximadamente 250 km de extensão e uma média de 50km de largura.

A estrada que cruza Chiloé ainda é a Ruta 5 (Panamericana) e lá em Quellón, cidade do embarque no Ferry da Naviera Asutral, seria o km inicial, que termina lá no Alaska. Cheia de curvas, pista simples, alguns caminhões e diversas partes em obra, realmente não permite uma média acima de 90km/h. O visual é incrível, trasmitindo paz, tranquilidade, casinhas no meio do campo, sempre com a chaminé expelindo fumaça do aquecimento à lenha, cheia de subidas e descidas, morros e aventualmente a estrada se aproxima do mar.

Esse aquecimento a lenha usado em excesso aqui no Chile é uma fonte de poluição, com o pauco gás que o Chile produz, só consegue abastecer com gás encanado as residências de Puerto Natales e Punta Arenas, mas até que sentir o cherinho de lenha, ver a fumacinha na chaminé de cidades como Pucón e aqui no Chiloé é muito agradável. Sempre dá vontade de parar a moto, bater na porta daquela casinha, imaginando uma sala quentinha e perguntar “sai um té ai?”.

Dia lindo, tudo indo muito bem, cheguei em Quellón às 11:30hs, altamente antecipado, pois esse barco só tem uma vez por semana e já estava me achando o maior sortudo por ter uma saída exatamente no dia que eu cheguei. Procurei o porto, foi um pouco difícil. Lá uma pessoa me informa que eu teria que comprar a passagem no escritório da Empresa Naviera Austral, e era no centro. Fui procurar e agora sim levei um cansaço. A cidade é minúscula, eu achei a rua, mas a placa é tão pequena que passei na frente de uma portinha de madeira umas quatros vezes e não vi. Lá comprei a passagem pelos 35.500 pesos chilenos, aproximadamente 72 dólares. Me informei sobre outras rotas, principalmente sobre a volta de Puerto Chacabuco para Quellón e o mais importante, que horas eu deveria estar no porto. A atendente ligou para uma outra pessoa que confirmou às 17 horas.

Lá de Quellón tem-se um visual lindo do Vulcão Corcovado,  de 2.300m de altura, coberto de neve como todos os outros.

Como eu iria desembarcar na Carretera Austral, mais precisamente em Chaitén, cidade destruída pelo Vulcão  de mesmo nome, resolvi fazer umas compras no mercado local, e amarrei as sacolas na moto. Fui ao posto enxer o tanque, galão de 6 litros também na moto, parei num restaurante para uma almoço não muito bom.

Em maio de 2008, a erupção do vulcão Chaitén provocou a evacuação de todos os habitantes da cidade, convertendo a Chaitén praticamente em uma cidade fantasma. Ele estava a 10.000 anos sem entrar em erupação e está localizado a 10km noroeste dessa cidade, que vai ser reconstruída pelo governo em um local próximo.

Como eu queria manter o padrão de prevenção na viagem, cheguei no porto meia hora antes das 17hrs. O mesmo homem que me mandou comprar a passagem na agência disse que o navio já tinha atracado ali e embarcado um único carro e estava no mar já, que eu deveria ir no escritório. Lá fui eu, que agora já sabia o caminho. Cheguei lá, pareciam já estar me esperando, já todos com sorriso amarelo na cara, e eu pergunto que horas o navio vem ao porto de novo. Começam a se justificar, dizendo que abriu uma brecha no porto, que tinha maré naquela horas para atracar, que eu não tinha telefone para entrarem em contato. Eu sou bem traquilo e dou mais risada do que faço cara feia, e acho que assim se consegue as coisas com mais facilidade. Eu já estava tratando direto com a gerente da empresa ali no local, que resolveu que o barco de passageiros viria no pier pegar a moto e levaria até o navio. Fui até o pier e esse barco é um barquinho pequeno que vai em cima do grande, serve para pegar passageiros e levar até ele, e impossível de botar a moto nele, o pier era muito alto e ele muito fino. Veio o capitão do navio até o pier e disse que não voltaria até o porto. Eu voltei lá no escritório, me ofereceram o dinheiro de volta, eu não aceitei, ofereceram então que eu voltasse a Puerto Montt e no dia seguinte pegasse o que sairia de para Chaitén, eu não aceitei também pois eu teria que rodar de volta 270km, dormir mais um noite no hotel, passar de novo no ferry de Chiloé para Pargua e rodar até P.Montt. Me ofereceram então pagar a hospedagem e eu não aceitei.

Eu fiquei lá dentro do escritório, quentinho, sentei numa mesa, usando a internet e aguardando uma solução, pois eu sabia que o barco só saia ali da baía de Quellón a meia noite. A gerente veio com a “maravilhosa” solução: “conseguimos outro barco para levar a moto”. Fui de novo até o mesmo pier, e lá estava um barco de pescado, de madeira, décadas de uso e exatamente da largura da Citycom. Estava também um cara da empresa Naviera. Perguntei então quem iria botar a moto ali e iria tirar lá. E ele faz um gesto e falando: “Eu e você”. Ai minha risadinha simpática já tava ironica. Então vamos lá! Um dentro do barco, outro fora, um degrau pro pier de cimento, uns 30 cm de água no meio, duas cordas amarrando o barco que balança, cai a roda dianteira, bate o fundo do motor da moto no pier, empurra mais, cai a de trás bate paralama e está dentro. Antes disso tirei toda carga da moto, joguei no meio do barco, por sorte também não cai nada na água. “Vamos amarrar? Não vamos assim mesmo. Ok, vou segurando no freio então”. E fomos em direção ao meio do oceano, onde o navio estava acorado. O cara que estava comigo, chama no rádio alguém dentro do navio, que abre a porta de trás, a rampa gigantesca que deveria descer em terra firme para carros entrarem, agora baixou no meio do mar. O barco aproxima-se, bate na rampa, jogam 2 cordas, amarram de qualquer modo e vai ser assim mesmo, agora tinham mais alguns dentro do navio para ajudar. De toda forma, se a moto afundasse na água, independente da profundidade era perda total na moto e nessa parte da viagem, já que outra Citycom só no Brasil, mas que o fato de estar do lado daquele navio enorme e no meio do oceano aumentou o medo, isso é verdade. De novo, passa roda da frente, bate o fundo na borda do barco, passa a de trás. Eu no barco pequeno empurrando a moto e outros no grande puxando, e logo que passou já gritei para empurrar lá para cima. Joguei, malas, galão da gasolina, sacolas de supermercado na rampa do navio, o pequeno se afastou e consegui respirar, sem acreditar muito no que fizemos e o quanto arriscamos, e isso tudo à noite, o que torna o mar ainda mais assustador, escuridão profunda e gelada.

Dentro do barco, aproveitei para pegar uma garrafa pet de coca 2 litros que estava vazia, cortei no meio e com fita silver fiz uns protetores de mãos reciclaveis, sabendo do frio que eu iria encontrar pela frente. Ao subir, logo perguntei do Wi-Fi, e diferente do que me informaram na venda dos bilhetes, agora não tinha, cancelaram pois estava causando complicações ao funcionamento dos intrumentos do navio que também usam o mesmo sistema.  Conheci a sala dos motores. O navio está equipado com 2 motores de 9 cilindros cada, 18 no total, e a minha moto 1. Eu embarquei antes dos passageiros, pois o embarque dos veículos, foi às 16:30hs, passageiros era às 22hrs, ai o navio ficaria das 22 às 24 na baía de Quellón, mas era obrigado a sair dali às 24hrs. Então, como a viagem leva 5 horas, e em Chaitén não permitem atracar à noite, ele navegou uns minutos, saiu da baía e ficou parado até às 3 da manhã.

Dentro do navio tinha a minha moto e um carro. Eu e mais uns 6 passageiros.  E ainda queriam me devolver o dinheiro. Depois descobri que essas linhas são subsidiadas pelo governo, acredito que para ajudar na recuperação de Chaitén e desenvolvimento da região onde íamos desembarcar, isolada do mundo, pois sem dúvidas essa viagem seria um prejuízo gigantesco para empresa.

Comi um pouco do que comprei no supermercado, desci onde estava a moto e peguei meu saco de dormir e colchonete, botei num grande espaço entre poltronas e dormir.

Acordei em 08 de junho de 2012 com às luzes do barco se acendendo, avisando a chegada em Chaitén. Fui na janela, visual fantástico, percebe-se a cidade, de poucas casas, destruída, um vulcão enorme ao fundo, uma neblina rasteira e muita vegetação. Depois de uma noite toda no mar,  que de onde parti já era um lugar sem nada e já tinha atravessado uma balsa e um arquipélago inteiro, chegar ali me fez refletir o quanto longe  e isolado de qualquer coisa eu estava.

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