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Harley-Davidson XL 1200X Forty-Eight

Algumas motocicletas da fábrica de Milwaukee permitem que no primeiro olhar compreenda-se o motivo do nome de batismo, como a Fat Boy, a Road King e a V-Rod Muscle. A novidade da família Sportster para os brasileiros, disponível na linha 2014, exige um pouco de conhecimento de história da marca para decifrá-la. Em 1948 pela primeira vez a Harley-Davidson equipou uma motocicleta com tanque de combustível estilo Peanut, traduzindo: amendoim. A Forty-Eight, ou quarenta e oito em português, carrega entre o guidão e o banco, um amendoim, ou melhor, um tanque de combustível estilo Peanut. Capito?

A versão que foi submetida a minha pegada na Itália era 2013, e na “pele” recebeu pintura Hard Candy Custom Coloma Gold, um opcional que requer algum dinheiro a mais para tornar sua garagem mais purpurinada. A Harley explica o motivo da exclusividade na pintura: “começamos com várias aplicações de flocos de 200 mícrons sobre uma base prata, depois envernizamos e laminamos manualmente, mascaramos a matriz e aplicamos a cor Candy para que os flocos possam brilhar. É um processo trabalhoso que proporciona aspecto customizado e premium direto da fábrica.”  Aqui no Brasil, a versão 2014 conta com as carnavalescas pinturas Hard Candy Chrome Flake, Hard Candy Volcanic Orange Flake e ainda as mais tradicionais, mas com nomes não menos pomposos, Morocco Gold Pearl, Vivid Black e Blackened Cayenne Sunglo. Ufa!

Montando na moça, percebi o quanto ela é magrinha, esbelta, resultado do conjunto tanque amendoim, de apenas 7,9 litros de capacidade com motor Evolution V2 a 45 graus, disposto de forma longitudinal, refrigerado a ar e com 1200 cilindradas entregando um torque de até 9,8Kgf/m. Enquanto só olhei, fiquei me perguntando onde estão os 255 quilos declarados pelo fabricante como peso em ordem de marcha, ou seja, pronto para o arrocha, afinal, é isso que importa! Quando fui dar uma manobrada, senti que estão ali os quilos, logo abaixo de mim, muito concentrados rente ao solo, nos 100 mm de distância moto/solo e disfarçados pelos 710 mm de distância banco/solo.

Sou motociclista fanático. Gosto de olhar e admirar a máquina. Quando paro para um refresco, no bar ou posto de combustíveis, sinto-me hipnotizado, paquerando minha companheira, seja ela quem for, de qualquer marca, cor ou idade, parece sempre me olhar convidativa. Ainda olhando antes de enrolar o cabo, noto que ela vem calçada com “sapatões” bem gordos, os Michelin Scorcher, que à primeira vista indicam estar sobrando, com uma imensa área de contato com o solo tanto na parte central como nas laterais, são 150 mm de banda de rodagem na traseira e 130 mm na dianteira, sendo os dois aros, de 16 polegadas. Ótimo! Adoro motos que possuem as duas rodas do mesmo tamanho, raridade numa Harley e noutras do mesmo estilo. Até aqui, no que depender de mim, do motor e dos pneus, vai ser pura diversão. Confesso que o fato de abaixo dos pedais existirem pinos que mais parecem querer alcançar o pré-sal, até me estimulou, sei que não me deixo intimidar pelo frigir metálicos e vou riscar o asfalto italiano.

Com as mãos comecei a tatear os comandos, para que fossemos nos conhecendo melhor, para poder domar ela às escuras, sem necessidade de desviar meu olhar da cinematográfica paisagem italiana. Carrego comigo dezenas de milhares de quilômetros sobre as antigas BMW, que sob meus protestos abandonou seus comandos de setas, um de cada lado, ao qual eu me adaptava muito bem, e para minha felicidade estão presentes aqui nesta americana loira, e eles desligam-se sozinhos depois de alguns segundos. Gosto dos manetes grossos e pretos, dos comandos de setas, start e faróis, que além de muito bonitos são bem ergonômicos. Depois do elogio amaciador de ego vem o soco. Beira o absurdo o posicionamento do único botão, que levei muito tempo para achar, com função de cambiar as informações do painel, entre relógio, hodômetro total e os dois parciais, isso na versão antiga, já que para a versão 2014 está disponível também indicador de marcha e rotações do motor. Ele está localizado atrás do painel, que fica muito distante. Mesmo com meu 1,80 m de altura, preciso largar a mão do guidão por um bom tempo, clicando diversas vezes no botão até encontrar a função desejada, esticando-me e desviando o olhar da estrada. Imagino quanto pior é fazer isso para uma pessoa menor do que eu. Ideal seria um botão junto aos comandos de setas e faróis.

Essa donzela é do tipo que realmente passou longe de ler o Kama-Sutra, e se leu não gostou, escolheu uma posição só, bem agressiva, sem possibilidades de variações. Montando nela percebi que nossas aventuras seriam numa posição tipo “V”, olhando lateralmente, fico com as pernas avançadas e devido ao guidão baixo e distante, os braços também. Não é uma scrambler onde se pilota mais em pé, e nem uma café racer, onde se pilota com as pernas posicionadas para trás. O que é? O que é? Importa isso? Diante do mar de motocicletas que temos à disposição hoje, tornou-se impossível classificar motocicletas como antes, temos verdadeiras misturas de todos os estilos. A inspiração da Forty-Eight veio dos veículos Hot-Rod. Segundo a Wikipédia, “Hot Rods são carros geralmente das décadas de 1920, 1930 e 1940 modificados. As modificações geralmente incluem rodas largas atrás, já que os carros eram praticamente todos de tração traseira, pintura com chamas geralmente feitas a partir de aerografia e pinstriping, e motores potentes, na maioria das vezes V8. Muito Populares nas décadas de 1940 e 1950, fazem sucesso até hoje entre os entusiastas automotivos.”

Quer dizer então que ela é inspirada em carros rebaixados? Perceptível pelos 10 centímetros que separa ela do solo. E como não poderia deixar de ser, pelos aproximadamente 9,2 centímetros de curso na suspensão dianteira e 4,2 na traseira, com regulagem de pré carga da mola disponível.

Já me disseram que falo demais.  Justo eu que falei da tal “pegada”, estou aqui no maior papo furado. Então lenha na caldeira! Chave conectada lá bem depois do botão do painel, ao lado da caixa de direção, coisas que só a Harley faz para você e precisa mais do que um Mastercard para comprar, dedão direito cravado com força no start e dou vida para a casa de máquinas. Agora é enrolar o cabo! O som “clanc” ao engatar a primeira avisa, depois da chave, que estou de Harley.

Vamos juntos sob um intenso luar a rodar pelo entorno do Lago di Garda. A brisa nos refrescando numa noite de verão italiana, faz com que realmente tudo fique maravilhoso, dispersam minha atenção de qualquer botão ou falta de curso de suspensão, vou rodando como se estivesse flutuando, no asfalto perfeito, apaixonado, rezando para nenhum mosquitinho bater na minha cara e me despertar. Noite perfeita.

Dia seguinte, hora de acelerar na auto-estrada em direção a Veneza. Já previa que seria entediante, mas ao contrário de rodar no trecho curto à noite, o dia na estrada mostrou que realmente a moça é tipo uma pin-up, de saltos enormes, com ódio de pegar vento nos cabelos. Mesmo com o consumo variando entre 20 e 21 quilômetros por litro, ótimo para uma moto de 250 quilos e 1200 cilindradas, o tanque de 7,9 litros realmente prova que ela nasceu para rodar pouco. A posição de pilotagem, que na noite anterior achei bem invocada, agora revelou o que eu já previa. Tornei-me uma espécie de pára-quedas. Todo o vento, que agora não é brisa, mas um bafo quente, empurra-me para trás. Começa uma briga. Primeiro eu contra o vento, pois ele empurra até a sola do meu pé, depois eu contra a moto. A estrada está entediante e então quero acelerar para vencer a distância, mas também quero ir mais devagar para não sofrer com o vento.

A luz de reserva acende logo após usar meio tanque da gasolina. Essa luz acende tanto que os lugares mais visitados são os postos de gasolina, caso o uso da Forty-Eight seja um percurso com algumas centenas de quilômetros. Isso é um Hot-Rod então, algo com rodas, feito para ir até um ponto bem próximo e parar, ficar parado com muito estilo, sem nem dar tempo de nada ficar muito “hot”, apesar de ter um motor grande, para andar devagar, no máximo curtindo umas belas retomadas a partir de um giro baixo.

Ela é ciumenta e nasceu pronta para dar prazer somente para seu piloto, tem pedais e banco só para ele, mas como toda Harley que se preza, tem no seu catálogo de acessórios, além de banco e pedais para garupa, uma infinidade de outros itens.

O V2 empurra fácil através dos 160 km/h, mas o que gosto mesmo é de na saída botar uma marcha sobre a outra, até a quinta e última, brincando de acelerar a partir dos 60 km/h, fazendo tremer, enrugando o asfalto, sentindo o torque. O motor não transmitiu muito calor para minhas pernas e nem mesmo me fez sentir incomodado com vibrações.

Muitos passeios, auto-estrada e agora chegou à hora de subir os Alpes. Experiente, fui buscando as belas estradas vicinais, podendo obter mais prazer na pilotagem até alcançar a cadeia de montanhas do norte da Itália. Cheguei lá já com aproximadamente dois mil quilômetros de convivência, e tendo explorado os limites nas curvas, o que não é nada difícil, mas fiz uma chata constatação. Para a esquerda inclino sem sustos, deixando o pino da pedaleira empurrar ela para cima ao mesmo tempo que chora riscando no chão. Para a direita, logo após o pino da pedaleira tocar o asfalto, o parafuso da braçadeira da ponteira do escapamento toca o chão, e por tratar-se de uma peça rígida, faz a brincadeira acabar ali, exigindo cuidados para não bater forte ou trancar, efeito ampliado quando se leva uma garupa. Os pneus sobram em conforto e estabilidade.

Os freios certamente estão de acordo com o estilo Hot-Rod, suficientes para o uso tranqüilo para o qual a moto foi projetada, mas como se trata de item de segurança, a todo momento eu recordava do Brembo com ABS e linhas de freio em malha de aço que equipam a V-Rod Muscle, e que a Harley como já fez a BMW, poderia generalizar na qualidade de todos os modelos, incluindo eles em toda a linha. Gosto do freio que morde de forma mais brusca e imediata, sobrando potência, deixando para o ABS corrigir meus excessos.

Fantástico poder saborear os encantos e as fraquezas dela, afinal qual motocicleta não as tem? Numa daquelas paradas para fotos e troca e olhares, observo que ela é uma motocicleta escura, cheia de peças negras, estas também com pintura impecável, tendo apenas os cromados do escapamento e do bocal do tanque para lustrar, aliás, este último te convida a ser polido a cada parada, onde nossa digital teima em ficar impressa.

Depois de milhares de quilômetros com a 48, com dor na bunda e nas costas, meio raivoso com o tanque pequeno, não a culpo. Nunca esperei conforto, e isso não é um defeito, ela é sim uma motocicleta com seu estilo próprio e assim deve ser entendida. Tudo nela está condizente com sua proposta, a posição radical, o visual hipnotizante, o tanque pequeno. Só está sobrando motor, mas por tratar-se de um brinquedo caro ele acaba sendo bem-vindo, nos dando o prazer de enfiar à mão e sentir o poder entre uma esquina e outra. Acredito que a linha Sportester seja uma das mais customizadas, mas nesse modelo a Harley deixou os fabricantes de peças paralelas e acessórios com um trabalho mais difícil. Ela já vem pronta, inclusive com os espelhos posicionados por baixo do guidão.

Lá nos 1.600 quilômetros a revisão foi feita na concessionária e minha única solicitação foi posicionar as molas traseiras com carga máxima. Com carga abaixo da média e garupa, o fim de curso é constantemente sentido. No serviço, não me agradou o alto custo e o fato de não ter sido feita uma limpeza.

Depois de tudo, todas as conclusões sacadas, estão achando que para encerrar fui para um bar próximo à beira do lago tomar muita cerveja? Quem já não teve uma namorada que depois de alguns dias juntos te fazia ter certeza de que nada queria com ela, mas alguns dias separados te fazia morrer de saudade, que brigavam, mas na cama tudo se resolvia e ali já trocavam juras de amor eterno. Leandro e Leonardo cantam: “Perguntaram pra mim / Se ainda gosto dela / Respondi tenho ódio / E morro de amor por ela / Hoje estamos juntinhos / Amanhã nem te vejo / Separando e voltando / A gente segue andando / Entre tapas e beijos / Eu sou dela ela é minha / E sempre queremos mais / Se me manda ir embora / Eu saio lá fora / Ela chama pra trás / Entre tapas e beijos / É ódio, é desejo / É sonho, é ternura / Um casal que se ama / Até mesmo na cama / Provoca loucuras / E assim vou vivendo / Sofrendo e querendo / Esse amor doentio / Mas se falto pra ela / Meu mundo sem ela / Também é vazio”. A loira parece ter o dom de manter nas minhas memórias só os momentos maravilhosos e me convidou para sair de novo e vivermos ainda mais aventuras. Saímos para 14 horas pilotando e atravessando leste a oeste a Toscana, tocando o Mediterrâneo, na costa oeste, depois de ter tocado o mar Adriático dias antes na costa leste da Itália. Entrei madrugada à dentro cruzando montanhas na noite negra sob a copa de imensas árvores, só encontrando me entregando a uma cama e uma garagem passadas às 3 horas da manhã.

Problemas? Nenhum! Nem mesmo uma lâmpada queimada, nem pneu furado, nem problemas mecânicos muito menos elétricos. Na garagem, sujo, cansado, molhado, suado, mas com sorriso largo no rosto olho para ela e quase que escuto ela dizer: “instale um posto a cada 100 quilômetros e te dou o mundo, se você resistir!

Então toda paixão vale à pena! Só quem viver com ela centenas de quilômetros saberá quantas emoções ela pode proporcionar. Comigo foram muito mais do que Forty-Eight!

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Categorias: The Long and Winding Road | Tags: , , , , , | 26 Comentários

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